Sexta-feira , 20 de Janeiro de 2017
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A MISS JANE

Abre-se uma história da literatura inglesa ou um dicionário de autores e em Austen, de Jane Austen (1775-1817) lê-se: a sua vida caracterizou-se pela ausência de acontecimentos. Era a sexta criança de uma família de sete, nasceu em Steventon, no Hampshire, na sede da paróquia de que o pai era o prior. Filha de eclesiástico, educada nos rigores do puritanismo, num tempo em que as pessoas escreviam cartas e, por decoro e pudor, não falavam dos sentimentos. Manteve uma correspondência extensa com a irmã, Cassandra, e foi a irmã que retirou dessas cartas todas as referências pessoais ou troca de confidências que ameaçassem a intimidade dos Austen e da escrita. Jane, a escritora, ressuscita agora à mercê da televisão e de uma série da BBC, e do cinema, o filme «Sense and Sensibility»; e, tratando-se do século XX, mesmo uma vida sem lamentos e com segredos amputados acabou devassada por um académico ou académica que achou bem rematá-la com a revelação de que a senhora era, afinal, ou seria, afinal, lésbica. Evidentemente.

O perfume de escândalo retardado causou estremeções nos fanáticos de Jane Austen que em Inglaterra, na América e no resto do Mundo, todos os anos peregrinam ao sítio da vida, paixão e morte da romancista, armados de louvor à sua eminência. Jane Austen tem um culto intenso e particular, que tem vindo a crescer depois da morte. Morreu com a prosaica doença de Addison.

Como é que esta mulher com uma existência de insipidez solicita os leitores? São as mulheres que lhe garantem uma audiência? São as mulheres que a leem e a matem viva? Falso. Um homem, Vladimir Nabokov, e antes dele, outro homem, Walter Scott, explicou a atração que Austen exerce sobre a contemporaneidade, e incluiu-a como tema de uma das suas «Lectures on Literature», ao lado de Dickens, Flaubert, Joyce, Kafka, Proust e Stevenson. Ou seja, explicou a universalidade e o génio. A história é mais complexa, se pensarmos que Nabokov começou por detestar Austen – «nunca consegui ver o que é que quer que fosse em Pride e Prejudice», escreveu ele a Edmond Wilson – e foi Wilson que lhe recomendou que lesse a miss Jane, que nunca se casou. Na opinião do americano, o russo deveria considerá-la uma da meia dúzia de grandes escritores ingleses, sendo os outros Shakespeare, Milton, Swift, Keats e Dickens. Recomendou-lhe especialmente «Mansfield Park», e foi «Mansfield Park» que provocou a «Lecture» nabokoviana. «Mansfield Park» começa com a frase: «Há cerca de trinta anos, a menina Maria Ward, de Huntingdon, com apenas sete mil libras, teve a boa sorte de cativar Sir Thomas Bertram, de Mansfield Park, no condado de Northampton, e assim ser elevada à categoria de mulher de um baronete, com todos os confortos e consequências de uma casa bonita e de um bom rendimento». Onde se lê «com apenas sete mil libras» falta a palavra mágica: dote. Com apenas sete mil libras de dote. Durante anos, recusei-me a ler «Mansfield Park», escrito entre Fevereiro de de 1811 e Junho de 1813, por causa da frase. Parecia-me, por razões distintas do desinteresse inicial de Nabokov, que um romance que começa por revelar a importância da falta de dinheiro num primeiro parágrafo, promete voo raso. Acabei por sair do primeiro parágrafo e, quase duzentos anos mais tarde, o parágrafo resolve-se na certeza de que Austen é atual e não ganhou uma ruga. A sua personagem-fetiche, e a personagem que empurra os protagonistas para o destino ficcional e o desfecho do romance, é uma mulher desmunida, por isso mesmo sujeita a peripécias montadas pelos mais poderosos; arremessos de fortes contra fracos que ela vai controlando com o tato até chegar, com senso e sensibilidade, ao lugar que lhe compete e que ambiciona: casar com o príncipe. A mulher de Jane Austen é, como Nabokov bem viu, Cinderela apaixonada. E Cinderela não tem tempo nem idade.

As Cinderelas de Austen ou sentem demais ou disfarçam o que sentem, e pertencem a um lugar de rendas e comedimentos, onde os gestos são delicadezas traçadas a aguarela. Os homens, ou são canalhas ou são nobres, e ora desonram as mulheres, ora honram a palavra dada. As personagens secundárias tomam a seu cargo o burlesco e o vício, como bobos da corte. Neste fim de século em que vale tudo e a honra é a palavra que sobrevive nas páginas dos livros, Austen devolve-nos uma inocência que desta o nó da nostalgia. O mundo mudou mas a natureza humana nem por isso. Quer ser feliz, Emma Thompson, que adaptou com inteligência e perícia o mundo de Austen ao cinema, confessou ter chorado sobre as páginas do livro, e foram estas lágrimas que correram nos olhos dos espetadores de cinema. São as lágrimas da fragilidade, dos sentidos em alerta, da dor causada pelos outros, do medo do amor e da traição do amor. São as lágrimas do sentido do dever. São, por último, as lágrimas da virtude vencedora, as lágrimas de Cinderela calcando com o sapato de cristal as duas filhas da madrasta, a adversidade e a injustiça. É xaroposo, eu sei, e é realista. O mundo tem destas coisas.

Um sapientíssimo silêncio cobre nos nossos dias da ira o desejo da pureza. Que mulher moderna admitiria, sem se envergonhar ou ridicularizar, estar à espera do príncipe? Após a morte do príncipe, é do príncipe que as mulheres continuam à espera. É uma espera enredada em falácia, que floresce na literatura e pode fenecer na vida. Nabokov fez bem a distinção entre as duas mas, não acautelou o anseio da alma romântica: melhor esperar do que desesperar. O público de Austen é o público feminino dos contos de fada. Que uma certa miss Jane, acusada de não ter vivido, nos venha confessar como vivemos, eis o mistério.

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