Terça-feira , 28 de Março de 2017
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Atletas de alta competição com elevado risco de asma

Com receio das entidades anti-doping muitos não estão a ser devidamente medicados

Um estudo internacional no qual participaram investigadores do Serviço de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e do Serviço de Imuno-Alergologia do Hospital S. João demonstrou que os atletas de alta competição têm um risco muito elevado de sofrerem de asma. Os praticantes de desportos de resistência (como maratonistas, ciclistas e nadadores) são os mais atingidos, demonstra o trabalho publicado em Junho na revista científica «Allergy».

Tem vindo a registar-se um aumento no número de atletas que apresenta queixas respiratórias e que têm necessidade de tomar fármacos para alívio da sintomatologia da asma. Embora esta medicação possa e deva ser prescrita aos atletas (desde que a doença e a toma dos fármacos seja devidamente notificada às entidades de controlo anti-doping), muitos atletas resistem a adoptar o tratamento por este possuir substâncias que constam da lista de produtos proibidos.

Contudo, os medicamentos de alívio dos sintomas da asma, como os beta-agonistas inaláveis, não melhoram o desempenho de atletas saudáveis, servindo apenas para restabelecer a capacidade de respirar daqueles que são afectados por asma brônquica.

Preocupados com o subdiagnóstico e o subtratamento da asma – que parece resultar da dificuldade de estabelecer o diagnóstico e do receio da medicação – a Academia Europeia de Alergologia e Imunologia Clínica e a Sociedade Respiratória Europeia criaram uma Task Force, com a qual a equipa da FMUP colabora, com o objectivo de estabelecer critérios de diagnóstico e normas de tratamento da asma e das alergias entre os atletas de topo.

Os cientistas relacionam a elevada prevalência de asma entre os atletas de alta competição com os largos períodos que estes desportistas passam com ventilação aumentada. O aumento da ventilação é um resultado natural da prática de exercício físico muito exigente, por longos períodos de tempo. Certos factores ambientais também promovem o aparecimento de asma nos atletas, como a exposição a ar muito frio durante os treinos, a exposição a substâncias poluentes como os derivados de cloro e as substâncias usadas na manutenção de ringues de gelo indoor, ou mesmo o pólen nos doentes alérgicos.

Está provado que a prevalência da asma aumenta com a idade e os anos de competição. Também a rinoconjuntivite alérgica conhecida no meio desportivo como “nariz de atleta” regista uma prevalência nos desportistas muito maior do que a encontrada na população em geral. O diagnóstico de rinite ou rinoconjuntivite alérgica deve deixar os médicos alerta para a possibilidade de existir asma concomitantemente. Quando não tratada, a rinoconjuntivite obriga o desportista a respirar continuamente pela boca, não aquecendo o ar, o que fomenta a inflamação das vias aéreas e a sintomatologia da asma.

Queixas comuns

As queixas respiratórias após a prática de exercício intenso são relativamente comuns, mas nem todas resultam da existência de asma, podendo ser uma tarefa bastante difícil destrinçar a asma induzida por exercício das limitações fisiológicas respiratórias que advêm de uma carga de exercício físico demasiado elevada.

O grupo de cientistas que promoveu este trabalho apela à necessidade de os atletas com queixas respiratórias serem devidamente avaliados e diagnosticados. Caso se confirmem as suspeitas de asma induzida por exercício, os atletas devem iniciar uma terapêutica adequada, para que consigam competir ao seu melhor nível, sem sofrerem as limitações de desempenho que a asma impõe.

O desporto não está contra-indicado nos asmáticos, pelo contrário: há evidência científica de que os asmáticos beneficiam da prática de exercício físico. O panorama encontrado entre os desportistas de elite tem que ver com as condições extremas de treino a que estão sujeitos e com certos irritantes aos quais estão continuadamente expostos (um nadador inala, por dia, uma quantidade maior de derivados de cloro do que o máximo permitido por lei em ambiente laboral, por exemplo). Mesmo assim, a asma nestes atletas pode ser controlada com a medicação e o acompanhamento certo.

Há muitos asmáticos entre os atletas de alta competição. Recorde-se os exemplos de Alberto Chaíça (maratona), Paula Radcliff (maratona) e Nuno Marques (ténis).

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2 comentários

  1. Uma novíssima perspectiva para a causa duma rinite alérgica, persistente e resistente a todos os hanti-histamínicos, que me acompanha desde o 17 anos, – a mim, que pratiquei desporto federado, em tres modalidades até ao 45 anos!!! Sou um exemplo claro de tudo o que este interessante texto apresenta, tanto no que respeita a sintomatologia, como ao meio ambiente que rodeou a prática desportiva. Obrigado por me alargarem os conhecimento com o Vosso site.

  2. (…) é evidente que tratando-se de asma induzida a atletas de alta competição, eu não deveria estar preocupado. No entanto o artigo instiga-me a que deva colocar pelo menos a seguinte questão: Eu tenho 60 anos e faço 3 vezes por semana entre 1500 e 2000 metros de natação em piscina, correspondente a 45/50 minutos de exercício seguido. Já tive rinite alérgica que depois de vacinado “correctamente” não voltou a manifestar-se nos últimos 8 anos. Mas esporadicamente “parece-me” que à noite tenho alguma dificuldade em respirar, tendo que por vezes encher os pulmões para me aliviar. Com esta sintomatologia deveria reduzir esta carga de exercício físico ???

    Entendo que os elementos que disponibilizo se revelam muito limitados para emitir uma opinião “sustentada” sobre o meu caso. Mas se mesmo assim puderem sugerir-me alguma mudança que no vosso entender se revelaria benéfica. Agradeço.
    Obrigado

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