Viriato da Cruz

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Viriato Clemente da Cruz nasceu em Porto Amboim (Angola), em 25 de Março de 1928, e morreu em Pequim (China), em 1973. Foi um dos promotores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, em 1948, e da revista «Mensagem», que se publicou em Luanda.

Alguns dos seus poemas foram musicados e cantados, por autores como Fausto e Rui Mingas. O seu «Namoro», com música de Fausto e interpretação original de Sérgio Godinho, é já um clássico da Música Popular Portuguesa.

Co-fundador do MPLA, de que foi secretário-geral, acabou por entrar em dissidência com a direcção de Agostinho Neto e exilou-se na China, onde veio a morrer, inadaptado e isolado. Publicou um único livro – «Poemas», editado em 1961 pela Casa dos Estudantes do Império – mas está representado em inúmeras antologias, com destaque para «O Reino de Caliban», dirigida por Manuel Ferreira, cujo volume II reúne toda a sua obra conhecida.

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorriso luminoso tão quente e gaiato
como sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce – como maboque…
Seus seios, laranjas – laranjas do Loge
seus dentes… – marfim…
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou: «Por ti sofre o meu coração»
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do Não dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que nele fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor… e ela disse que não.
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
«-Não viu… (ai, não viu…?) não viu Benjamim!»
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: «Aí, Benjamim!»
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.

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