Tempo corrosivo

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Voltei à quinta da minha infância
a estrada de terra batida
continua a correr em curvas apertadas
até ao muro branco de friso amarelo.
Ainda resta a casa senhorial
a que se encosta uma pequena capela.
Está requintada a quinta
como requintado esteve o casamento.
Da velha adega restam as cubas
as pipas e as traves de madeira,
dos antigos barracões agrícolas
não há traços, foram transformados
em cozinhas, copas e salas de apoio.
Por entre a noite e as pessoas
sobressaiam os amigos que sempre o foram
e neles vi ressurgir os rostos adolescentes
o brilho dos olhares, os cabelos ao vento
a vida toda ainda por desdobrar
e como num filme antigo e gasto
pela memória com que tudo recordava
desfolhei o meu imaginário
naquela noite de desfolhada
onde no adro junto à adega
sentados à volta duma meda de milho
enquadrados por trabalhadores agrícolas
numa noite enluarada de estio
um grupo de jovens citadinos aprendia
numa saudável alegria
a dura arte de desfolhar o milho
e a secular tradição do milho-rei
milho de fogo, milho de amor;
minhas mãos desajeitadas procuravam-no
na ânsia da recompensa prometida
o beijo do moço que eu escolheria
e ele estava escolhido e a noite era tão bela!
Pobre amado     pobre beijo     pobre desejo
o milho-rei fugia aos meus dedos apressados
não houve milho-rei    não houve beijo
e o amado nunca soube da minha ânsia.

Hoje, na quinta remodelada
por entre a música e os jogos de sociedade
olhei o amado presente e não o reconheci
e uma leve nostalgia envolveu-me.
Ficou a quinta
ficaram os amigos
e sobrepondo-se a tudo
ficou a realidade da recordação desfeita
num beijo que o tempo desfolhou.

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