Terça-feira , 12 de Dezembro de 2017
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Instrumentos musicais tradicionais portugueses

Alguns deles, hoje esquecidos, esperam uma nova consciência do seu papel na vida das comunidades que os utilizavam, outros, irremediavelmente mortos, não deixam de ser testemunho de uma realidade feita de alegrias e tristezas dos grandes dias de festa ou do simples e duro dia a dia. Reflexo de uma sociedade eminentemente rural, hoje em grande transformação, estes objetos serão peças de museu.

Mas de um museu vivo onde eles possam continuar a contar a sua história, e onde os nossos jovens que crescem num mundo de referências musicais cada vez mais europeizadas possam enriquecer essas referências com algo da sua própria cultura, tornando este espaço europeu cada vez mais diferente.

… Quem tocará ainda a bandurra beiroa e a viola campaniça, desaparecidos o tio Manuel Moreira, de Penha Garcia, e o Jorge Caranova de Santa Vitória?… E quando se for o Virgilio Cristal, quem ficará para tocar o deslumbrante tamboril e flauta em terras mirandesas?… E bom, é mau? E a lei dos tempos para lá do bom e do mau… e quando as alvíssaras da Páscoa ou as alvoradas dessas bárbaras festas transmontanas forem feitas por um altifalante instalado numa furgoneta que atroa os ares com a última canção duma vedeta da rádio, o mundo terá certamente perdido uma grande riqueza – ou melhor: a riqueza do mundo valerá muito menos a pena ser vivida. – Ernesto Veiga de Oliveira

Essa procura, em paralelo com as capacidades de modulação da voz e de percussão do corpo, tem levado ao aperfeiçoamento de objectos sonoros. Uma cana de bambu, uma pele ou uma corda esticada, criaram os primeiros instrumentos musicais. O seu uso teve um papel de tal maneira importante na história das civilizações que a sua invenção tem sido, em várias culturas atribuída aos deuses. Objectos de mitos e também de rituais o seu som representa a voz dos antepassados. Mas é também através deles que os homens encontram um meio de mostrar a sua alegria e a sua tristeza, o seu amor e o seu odio.

Eles são testemunhos não só de usos e crenças e dos símbolos aos quais estão associados, mas também dos feitos históricos, dos universos culturais e das invenções tecnológicas. E como objectos de arte, da época e do meio social onde são produzidos. Por isso, conhecermos de perto estes objectos é conhecermos também um pouco a história do nosso povo, das regiões onde habita, dos seus hábitos de festa, de religião, de trabalho, da diversidade das suas formas culturais e artísticas já que os instrumentos musicais são, com nos diz Alessandro Sistri:

“… Documentos complexos que nos ajudam a conhecer diferentes aspectos da cultura a que pertencem, por serem objectos síntese do sistema expressivo sonoro-musical e do sistema simbólico-material, em que as funções sonora, simbólica e estética interagem e as componentes decorativas, iconográficas e plásticas dão sentido mágico ao instrumento…”

Portugal forma-se com Nação num território culturalmente abrangido pela Península Ibérica. A este espaço confluem vários povos e culturas que até ao séc. XVI se vão influenciar mutuamente, conservando particularidades que Ihe são próprias e criando por isso aspectos muito ricos, nomeadamente no campo da música e dos instrumentos musicais. Neste aspecto tem particular importancia a ocupação árabe. Os seus músicos alcançaram grande prestígio e alguns dos seus instrumentos foram rapidamente copiados e utilizados pelos músicos cristãos. Alguns deles chegam até aos nossos dias mantendo o nome árabe como por exemplo o adufe. Os materiais usados na feitura dos instrumentos são também reveladores das actividades quotidianas dos seus proprietários. Instrumentos feitos com peles de animais como por exemplo a gaita de foles, o adufe e a sarronca são de carácter pastoril aparecendo por isso nas regiões do país onde essa actividade é predominante.

Na verdade a caracterização geográfica do País está intimamente ligada à distribuição das formas instrumentais. Ernesto Veiga de Oliveira apoia-se na divisão que Orlando Ribeiro faz em Portugal Atlântico, Transmontano e Mediterrâneo. “… Sob o ponto de vista paisagístico e cultural especial e muito geral, distinguiremos em Portugal, ao norte do Tejo duas áreas fundamentais por um lado, as terras do planalto alto e leste transmontano e beirão, marcadamente arcaizantes e pastoris, fechadas em si mesmas até épocas muito próximas, na vastidão de um horizonte severo e áspero, e onde formas de vida extremamente antigas eram (e são ainda em muitos casos) a atmosfera quotidiana; por outro lado, as terras baixas a ocidente da barreira central, do Minho ao Tejo, populosas, conviventes, intensamente humanizadas, abertas a todas as influências e naturalmente impelidas para fórmulas mais progressivas, embora imersas ainda em inúmeros sectores culturais, no seu ambiente tradicional. O Alentejo, sob certos aspectos, prolonga a sul, o panorama pastoril do planalto; a cultura regional reflecte uma personalidade original muito forte, e é também acentuadamente tradicional, mas a marca do espaço é ali mais sensível do que a do tempo. E no Algarve, por seu turno, inversamente, condições paralelas às que apontamos nessas regiões nortenhas ocidentais estão na base de um ambiente que sob certos aspectos, se assemelha ao dessas terras…”

MINHO

No Minho os instrumentos mais importantes são os conjuntos instrumentais das RUSGAS, da CHULA, e também dos ZÉS-PEREIRAS.

TRÁS-OS-MONTES

Em Trás-os-Montes, além dos conjuntos instrumentais do GAlTElRO e TAMBORlLElRO,tem também importância o PANDEIRO, membranofone de forma quadrangular, geralmente tocado pelas mulheres a acompanhar todo o género de cantares de festa.

BEIRA LITORAL

Também nesta região, além dos conjunto instrumental dos ZÉS-PEREIRAS e do FADO, teve particular importancia a VIOLA TOEIRA nomeadamente na região de Coimbra, onde hoje infelizmente já não existe nenhum tocador.

BEIRAS INTERIORES

Sobretudo na Beira-Baixa, o ADUFE é o instrumento mais importante da região. Ele é aí tocado com grande maestria, imaginação e paixão, tanto em festas profanas como religiosas, alvíssaras da Páscoa e Romarias. A FLAUTA TRAVESSA e a PALHETA são passatempo individual de pastores. Na região do Fundão tem grande importãncia os BOMBOS. A VIOLA BEIROA além das funções de passatempo era também um instrumento cerimonial usado na Dança da Genebres e outras que tinham lugar na festa da Senhora dos Altos Céus, na Lousa, e nas Folias do Espírito Santo de grande importãncia nesta região.

ESTREMADURA

Na Estremadura o ACORDEAO, se bem que seja um instrumento muito difundido por todo o país tem um lugar muito especial nos bailes acompanhando o fandango, o passecate, o verde gaio, a contradança, etc. Também a GAITA DE FOLES é um elemento imprescindível dos Círios da região. Em Lisboa tem grande destaque a GUITARRA PORTUGUESA e o VIOLÃO por vezes acompanhado pelo VIOLÃO BAIXO no conjunto do FADO.

ALENTEJO

No Alentejo existem três formas instrumentais: TAMBORIL E FLAUTA na região além Guadiana. O PANDEIRO quadrangular e a PANDEIRETA majs a norte da província. Mais a sul a VIOLA CAMPANIÇA como instrumento acompanhador do canto e animador dos bailes da região.

ALGARVE

No Algarve além dos instrumentos de tuna e do ACORDEÃO, na região da serra encontra-se com frequência a FLAUTA TRAVESSA feita de cana.

MADEIRA

Na Madeira têm grande importância os conjuntos formados pelos instrumentos de corda: a VIOLA DE ARAME, o RAJÃO e a BRAGUINHA e a RABECA ou VIOLINO, que acompanham os cantadores e a dança nas festas públicas que se realizam na ilha.

AÇORES

Os instrumentos mais importantes das ilhas dos Açores são as violas com dois tipos distintos: A VIOLA MICAELENSE com a boca em forma de dois corações e a viola TERCEIRENSE com a boca redonda. Ambas se usam em ocasiões festivas a solo ou a acompanhar o canto e a dança, nas romarias, aos serões. Também nas festas do Espirito Santo de grande importãncia em todas as ilhas, os Foliões, grupos de tocadores que acompanham os vários momentos da festa e tocam o TAMBOR DA FOLIA juntamente com o PANDEIRO, fuste de pandeireta sem pele, na ilha de S. Miguel. Nas ilhas de S. Maria, Flores e Corvo o acompanhamento do tambor é feito com os TESTOS, pequenos pratos metálicos que se batem um contra o outro.

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